No Mês da Mulher, a Amagis segue destacando a trajetória e a atuação de magistradas mineiras que contribuem para o fortalecimento da equidade de gênero no Judiciário. Nesta última entrevista da série, a vice-corregedora-geral de Justiça de Minas Gerais, desembargadora Kárin Emmerich, compartilha sua experiência na magistratura, ressalta os avanços conquistados pelas mulheres no sistema judicial e aponta as barreiras que ainda precisam ser superadas para garantir uma maior representatividade feminina nos cargos de liderança.

Com uma trajetória marcada pela dedicação e pelo compromisso com a justiça, a desembargadora também destaca o impacto de iniciativas institucionais voltadas para a equidade de gênero e celebra a presença de mulheres em posições estratégicas, como a eleição da primeira presidente da Amagis em 70 anos de história da Associação.

(Crédito: Euler Junior/TJMG)

Confira a entrevista completa:

A senhora ingressou na magistratura em um cenário em que a presença feminina nos cargos de liderança era ainda menor. Como foi sua trajetória até se tornar vice-corregedora-geral de Justiça de Minas Gerais? 

Minha trajetória na magistratura reflete a evolução de uma carreira construída com muita dedicação, respeito aos princípios jurídicos e um compromisso contínuo com a justiça e a equidade. Ao ingressar na magistratura, a presença feminina no Judiciário era, de fato, bem reduzida. Contudo, essa realidade foi gradualmente mudando, e pude, ao longo dos anos, contribuir para esse processo, assumindo diferentes responsabilidades e integrando os espaços de decisão. A minha ascensão à Vice-Corregedoria-Geral de Justiça de Minas Gerais foi resultado de uma trajetória pautada pelo compromisso com a eficiência do Judiciário e pela busca constante por melhorias na gestão judicial, sempre com o foco na inclusão, na transparência e na promoção da justiça. 

Quais foram os principais desafios que a senhora enfrentou ao longo da carreira pelo fato de ser mulher? 

Ao longo da carreira, enfrentei alguns desafios típicos da condição feminina, como a necessidade de provar constantemente minha competência e, por vezes, lidar com estereótipos que subestimam a capacidade de uma mulher em cargos de liderança. Além disso, o equilíbrio entre a vida profissional e as demandas pessoais e familiares sempre foi uma questão que exigiu esforços adicionais, dado o contexto social que muitas vezes coloca a mulher em uma posição de maior responsabilidade nos cuidados domésticos e familiares. No entanto, encarei esses desafios como oportunidades de crescimento e superação, buscando sempre fazer da minha atuação um exemplo de comprometimento com a justiça. 

A senhora acredita que ainda existem barreiras para que mais mulheres cheguem a cargos de chefia no Judiciário? Se sim, quais são elas? 

 Sim, ainda existem algumas barreiras que dificultam a ascensão de mais mulheres a cargos de liderança no Judiciário. Embora tenhamos conquistado avanços importantes, é certo que o machismo estrutural ainda se faz presente em todos os espaços de poder, prevalecendo modelos de liderança tradicionalmente liderados por homens. Além disso, a falta de uma rede de apoio eficaz, como a distribuição equilibrada de responsabilidades familiares e profissionais, e o preconceito em relação ao papel de liderança feminina, ainda são desafios a serem superados.

Como a senhora avalia o papel do Judiciário na promoção da igualdade de gênero? O que tem sido feito de destaque nos cenários nacional e estadual?

O Judiciário tem cumprido um papel fundamental na promoção da igualdade de gênero, tanto no que se refere à aplicação da legislação vigente quanto na implementação de políticas públicas. No cenário nacional, temos visto decisões importantes no âmbito da Lei Maria da Penha, por exemplo, que buscam combater a violência doméstica e promover a proteção das mulheres. No âmbito estadual, em Minas Gerais, temos trabalhado para garantir a igualdade de tratamento dentro do Judiciário e implementar medidas que garantam a inclusão e a equidade de gênero, como a criação de programas de apoio às magistradas e servidoras, além da capacitação de todos os servidores para questões de gênero. Recentemente vigora a lista exclusivamente feminina para o cargo de Desembargadora, havendo um compromisso do Presidente Luiz Carlos de Azevedo Corrêa Junior de manter essa lista até que atinja a paridade de 50% de homens e mulheres no TJMG. 

Quais avanços ou mudanças a senhora acredita serem fundamentais para garantir maior equidade de gênero dentro da magistratura e nas diretrizes da Corregedoria, especialmente no apoio às magistradas e servidores no exercício de suas funções? 

Acredito que é fundamental a criação de políticas de gestão que promovam a igualdade de gênero no Judiciário. Isso inclui desde a implementação de programas de mentoria para mulheres em todas as fases de sua carreira até a criação de mecanismos para a promoção de uma maior participação feminina nas comissões de gestão e em cargos de liderança. Além disso, o apoio psicológico e social para magistradas e servidoras, especialmente no que diz respeito ao equilíbrio entre vida profissional e pessoal, é essencial. A Corregedoria também pode contribuir criando diretrizes que orientem a atuação dos servidores com base em princípios de equidade de gênero, garantindo que todas as pessoas, independentemente de seu gênero, recebam o mesmo apoio e tratamento dentro do Judiciário.

Como a senhora avalia o fato de a Amagis ser presidida, pela primeira vez em 70 anos, por uma mulher?

A eleição de uma mulher para a presidência da Amagis, após 70 anos de história, é um marco significativo e um reflexo do progresso que estamos vivendo no Judiciário. Essa conquista demonstra que as mulheres têm alcançado posições de destaque e influência nas instituições jurídicas, rompendo barreiras históricas e quebrando paradigmas. A liderança feminina na Amagis representa um sinal claro de que as mulheres estão cada vez mais preparadas e capacitadas para ocupar cargos de liderança, o que, sem dúvida, contribui para uma gestão mais inclusiva e representativa. A exemplo dessa conquista foi a recente posse da Ministra Elizabeth Rocha como a primeira mulher a presidir o STM em 217 anos. 

No mês em que celebramos o Dia Internacional da Mulher, que mensagem a senhora gostaria de deixar para suas colegas magistradas e para as mulheres que atuam no sistema de Justiça?

Minha mensagem é de encorajamento, força e união. O Dia Internacional da Mulher é uma oportunidade para refletirmos sobre as conquistas alcançadas e, ao mesmo tempo, para reafirmarmos nosso compromisso com a luta por mais igualdade e respeito. Às minhas colegas magistradas e às mulheres que atuam no sistema de Justiça, deixo um convite para que sigam em frente com determinação, superando os desafios que surgem, e continuem a ser exemplos de excelência e dedicação. O nosso papel no Judiciário é essencial para garantir uma justiça mais justa e igualitária para todos. E para isso, temos a obrigação de continuar cada vez mais abrindo os caminhos, como fizeram as valorosas mulheres que nos antecederam, para as gerações futuras.