O período de três anos e oito meses à frente da Direção do Foro da Comarca de Belo Horizonte consolidou-se como uma etapa marcante na trajetória do juiz Sérgio Henrique Cordeiro Caldas Fernandes, ao ampliar sua visão institucional, administrativa e humana do Judiciário. A experiência acumulada na condução da maior comarca de Minas Gerais passa a integrar, agora, a nova fase de sua carreira, com a entrada em exercício, no dia 3 de fevereiro, como juiz de 2º Grau do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG).

Juiz Sérgio Fernandes fala sobre principais avanços e desafios de sua atuação à frente do Foro de BH

A passagem pela Direção do Foro de Belo Horizonte é descrita pelo magistrado como uma experiência intensa e enriquecedora. Segundo ele, o exercício da função administrativa exigiu dedicação contínua, mas trouxe ganhos expressivos sob o ponto de vista profissional e institucional. “A vivência na gestão foi determinante para o meu desenvolvimento, especialmente no que diz respeito à compreensão dos desafios administrativos e da estrutura de atendimento ao público e ao aprimoramento das relações interpessoais”, afirmou.

Visão institucional ampliada

O contato direto com a estrutura administrativa do Judiciário ampliou a percepção do magistrado sobre o funcionamento interno do Tribunal. A atuação na gestão permitiu a ele compreender, de forma mais clara, o papel estratégico da administração como suporte indispensável para que magistrados e servidores possam exercer suas atribuições com eficiência.

Ao longo desse percurso, a dimensão institucional do Tribunal de Justiça tornou-se ainda mais evidente. Para Sérgio Fernandes, a complexidade do TJMG só se revela plenamente a quem vivencia a gestão de perto. “Quando se está envolvido na administração, é possível perceber que o Tribunal, em muitos aspectos, possui uma estrutura comparável à de tribunais nacionais de outros países”, observou. Essa compreensão, segundo ele, contribui para uma visão mais ampla e responsável do papel do Judiciário.

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Gestão de pessoas

Na Comarca de Belo Horizonte, os desafios apresentaram-se de maneira multifacetada. A dispersão física das unidades judiciais, após a transferência do Fórum Lafayette — anteriormente localizado no edifício Governador Milton Campos — para outros cinco prédios, representou um obstáculo logístico importante, mas não foi apontada como o maior desafio enfrentado por Sérgio Fernandes. “Embora a transferência para múltiplos prédios tenha exigido soluções logísticas constantes, essa não foi a principal dificuldade”, ponderou.

A gestão de pessoas ocupou lugar central nas preocupações da Direção do Foro. “A maior dificuldade reside na administração das necessidades pessoais e no estabelecimento das relações sociais”, afirmou. O elevado número de magistrados, servidores, colaboradores e cidadãos que transitam diariamente pelas unidades compõe um ambiente marcado por demandas sensíveis e alta carga emocional. De acordo com o juiz, são milhares de pessoas que chegam ao Judiciário em situações de conflito, angústia e ansiedade, o que inevitavelmente repercute na equipe e na própria gestão.

A gestão de pessoas esteve entre os pontos centrais do trabalho do magistrado na Direção do Foro

Impactos da pandemia

Sérgio Fernandes assumiu a direção do Foro de Belo Horizonte no período final da pandemia de covid-19. As mudanças estruturais e comportamentais decorrentes da crise sanitária alteraram a dinâmica institucional e impuseram desafios adicionais à administração. Ao relembrar esse período, o juiz fez questão de reconhecer o empenho das equipes e daqueles que o sucederam. “Destaco o trabalho de excelência realizado por meu antecessor, o juiz Christyano Lucas Generoso, e sua equipe. Foi um trabalho árduo, que exigiu um grande esforço de todos, principalmente emocional”, observou.

O retorno gradual às atividades presenciais revelou um cenário transformado. A consolidação dos processos digitais, a redução da presença física no fórum e a diminuição das audiências presenciais impactaram diretamente as relações de trabalho. “O reencontro presencial evidenciou o impacto da pandemia e a ausência de uma estrutura presencial completa”, observou. Embora os índices de produtividade tenham sido mantidos, o magistrado reconheceu o aumento do distanciamento interpessoal e seus reflexos no sentimento de pertencimento institucional. “Esse aspecto afetou a relação das pessoas com o Tribunal de Justiça”, avaliou.

Com o passar do tempo, a gestão conseguiu promover uma retomada gradual do equilíbrio institucional. O retorno progressivo das pessoas, a diminuição das incertezas e a reorganização das rotinas contribuíram para a reconstrução do ambiente de trabalho, ainda que em moldes distintos daqueles vigentes antes da pandemia.

Inovação e tecnologia

No campo da inovação, o juiz Sérgio Fernandes destacou os avanços na informatização e na incorporação de novas tecnologias durante sua gestão. A conclusão da virtualização dos processos e o início da digitalização dos inquéritos policiais figuram entre os principais marcos do período. Com isso, Belo Horizonte assumiu papel estratégico ao absorver a digitalização de processos oriundos de comarcas do interior, em um procedimento de elevada complexidade operacional.

Paralelamente, a utilização de sistemas de inteligência artificial passou a integrar a rotina administrativa em diversas frentes. Ferramentas voltadas à análise de inquéritos policiais, à gestão da expedição de guias e à automatização da distribuição processual contribuíram para a racionalização dos fluxos de trabalho. Segundo o magistrado, esses sistemas possibilitam a identificação de padrões e o fornecimento de informações estratégicas, com impacto direto, por exemplo, na mitigação da litigância predatória. “Nesse contexto, a Comarca de Belo Horizonte acaba se firmando como uma ponta de lança, funcionando como espaço de testes para avaliar o que funciona ou não, antes da expansão das soluções para outras unidades”, observou.

Diálogo e escuta

O fortalecimento do diálogo institucional também se consolidou como eixo estruturante da gestão. Para o magistrado, criar um ambiente de escuta e participação ativa dos colegas, servidores e colaboradores da comarca foi decisivo para aprimorar a administração e fortalecer o senso de pertencimento. “Quando o diálogo é fortalecido, novas ideias surgem, projetos ganham forma e a gestão se torna mais transparente e responsável”, afirmou. Segundo ele, a falta de comunicação e o distanciamento entre a administração e as equipes podem ter efeitos negativos, como a supressão de boas ideias e a dificuldade de estruturação de dados.

Magistrado ressalta a importância do diálogo como ferramenta para aprimorar a administração judiciária

Ao se despedir da Direção do Foro, o magistrado fez uma reflexão sobre o significado institucional da função. Para ele, a experiência administrativa vai muito além dos desafios inerentes ao cargo e deixa marcas profundas em sua trajetória profissional. “A confiança depositada no diretor do Foro tem um significado especial para quem assume a função. A experiência fortaleceu meu senso de pertencimento ao Tribunal e impulsionou a vontade de contribuir, não apenas para o aprimoramento da jurisdição, mas também para a melhoria da instituição como um todo”, afirmou.

Otimismo

Sérgio Fernandes também destacou a parceria institucional e o apoio recebido da Direção do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Segundo o magistrado, o diálogo e o respaldo do presidente do Tribunal, desembargador Luiz Carlos Corrêa Junior, e do corregedor-geral de Justiça, desembargador Estevão Lucchesi, foram decisivos para a condução dos trabalhos ao longo da gestão. “Tive total apoio do presidente Corrêa Junior e do corregedor Estevão Lucchesi, sempre com abertura ao diálogo, sensibilidade às demandas da comarca e compromisso com o fortalecimento da atividade jurisdicional”, ressaltou.

Ao comentar a transição na Direção do Foro, o magistrado também destacou a trajetória da juíza Andréa Miranda Costa, que agora o sucede no cargo, ressaltando sua dedicação e compromisso com o Judiciário mineiro. “Andréa é uma magistrada extremamente preparada, comprometida com o Tribunal e com a qualidade da prestação jurisdicional, e tenho plena confiança de que realizará um trabalho brilhante, ainda melhor que o meu”, disse.

O balanço da gestão se encerra com um reconhecimento direto às equipes que sustentam, diariamente, o funcionamento da maior comarca de Minas Gerais. Para o magistrado, o trabalho desenvolvido nem sempre é percebido pela sociedade, muitas vezes ofuscado por uma cultura histórica de burocracia que marca o país. 

Ainda assim, ele faz questão de destacar a qualidade humana e técnica das pessoas que constroem a Justiça no cotidiano. “A gente faz um trabalho de alta qualidade, que nem sempre é observado, mas temos servidores e magistrados extremamente qualificados, com excelentes condições de trabalho e capacidade para entregar um serviço cada vez melhor”, afirmou. Ao se despedir da Direção do Foro, Sérgio Cordeiro deixa uma mensagem de confiança e esperança: a de que, com valorização, diálogo e olhar otimista, o Judiciário mineiro tem todas as condições de seguir avançando e fortalecendo sua missão institucional.